5. GERAL 3.4.13

1. NEGCIOS  SONHAR PEQUENO NO VALE A PENA
2. GENTE
3. ESPECIAL  NADA SER COMO ANTES
4. ESPECIAL  SAINDO DAS SOMBRAS
5. HISTRIA  A DOR NO VAI EMBORA
6. ESPORTE  LIO DE BIOMECNICA
7. BELEZA  CIRURGIA PLSTICA: QUAL O LIMITE?

1. NEGCIOS  SONHAR PEQUENO NO VALE A PENA
Livro narra a trajetria do trio de empresrios que criou a Ambev e protagonizou alguns dos maiores negcios do capitalismo mundial nos ltimos anos. A estratgia deles  estipular metas ousadas  e persegui-las com tenacidade.
MARCELO SAKATE

     A aquisio da empresa americana de alimentos Heinz, em fevereiro, pelos empresrios brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira no chegou a surpreender a comunidade internacional dos negcios. Em quatro anos e meio, eles j haviam arrematado a dona da Budweiser, a cerveja mais vendida no mundo, e o Burger King, a segunda maior rede de fast-food. Mais importante, imprimiram a sua marca de eficincia administrativa nas duas empresas, recolocando-as no caminho dos bons resultados. Para quem os conhece h mais tempo, a compra da Heinz s reafirmou a determinao do trio. Tome-se o exemplo do americano Jim Collins, o consultor de negcios mais respeitado da atualidade. Para ele, Lemann, Telles e Sicupira j deixaram a sua marca ao lado de visionrios como Walt Disney, Henry Ford, Sam Walton (Walmart), Akio Morita (Sony) e Steve Jobs (Apple).  o que diz Collins no prefcio de Sonho Grande, da jornalista Cristiane Correa (Primeira Pessoa; 245 pginas; 39,90 reais), que chega s livrarias no prximo dia 9. O livro conta a trajetria de obstinao e competncia de Lemann, Telles e Sicupira na perseguio de seus objetivos e, por que no dizer, sonhos. Afinal, como costumam afirmar: "Sonhar pequeno d o mesmo trabalho que sonhar grande. Ento, por que no sonhar grande?". O pensamento paira como um mantra sobre todos os negcios administrados pelo trio e sua equipe. 
     Para escrever o livro, Cristiane Corra conversou com uma centena de pessoas  exceto seus trs personagens, historicamente avessos a entrevistas. A ascenso do trio comeou em 1971, com a compra da corretora Garantia, por Lemann e outros scios  ela se transformou no maior banco de investimentos do pas. Foi a partir dali que nasceram projetos como a compra da Lojas Americanas, em 1982, e a da Brahma, em 1989. Depois viria a fuso com a Antrctica, em 1999, que resultou na criao da Ambev. As unies com os belgas da Interbrew, em 2004, e com os americanos da Anheuser-Busch, em 2008. deram origem  AB InBev, a maior cervejaria do mundo. O maior mrito deles, porm, foi ter desenvolvido e disseminado um modelo de gesto com base na meritocracia, ou seja, no reconhecimento a quem trabalha duro e traz resultados e na reduo de custos. Em outras palavras, na busca incessante pelos lucros e pela expanso dos negcios. Nessa trajetria, eles formaram alguns dos melhores executivos do pas. Trata-se de uma prova de que um dos sonhos do trio j  realidade: a perpetuao de sua cultura empresarial. 
     Lemann, de 73 anos,  de uma gerao anterior  de seus dois parceiros. Filho de um imigrante suo, fundador da fabricante de laticnios Leco (abreviao para Lemann & Company), ele nunca chegou a trabalhar na empresa do pai, optando por atuar no mercado financeiro. Telles, hoje com 63 anos, e, depois, Sicupira, 64, foram contratados para trabalhar no Garantia em 1972 e 1973, respectivamente. Comearam por baixo, mas subiram rapidamente na hierarquia e logo conquistaram a confiana do scio controlador. Lemann inovara ao adotar o sistema de bnus com base em metas, em vez do tempo de casa ou no cargo, e em oferecer sociedade a quem se destacasse. Pagava salrios abaixo dos de mercado, mas compensava agressivamente com a remunerao varivel. O banco ganhou fama pelo ambiente competitivo e pelas longas jornadas de trabalho. Quem no se enquadrava saa logo  caso do economista Eduardo Giannetti da Fonseca, que no durou mais de uma semana nos anos 90. Na Brahma, uma das inspiraes para dar mais produtividade aos negcios foi o modelo 20-70-10, idealizado pelo lendrio Jack Welch, ex-presidente da General Electric. A cada ano, os 20% de funcionrios com melhor desempenho eram premiados; os 70% seguintes mantinham o emprego; e os 10% com pior resultado eram demitidos. 
     A trajetria do trio no  isenta de fracassos. A venda do Garantia para o Credit Suisse, em 1998, ocorreu depois de o banco sofrer um prejuzo de 110 milhes de dlares com a crise asitica. Investidores perderam muito dinheiro, e o patrimnio dos fundos administrados caiu pela metade. Lemann no conseguiu passar o banco para os scios mais novos e definiu o episdio como uma de suas maiores decepes, porque a sua primeira grande criao no seria perpetuada. Mas assimilar as razes de uma falha , obviamente, uma das virtudes dos vencedores. 


2. GENTE
JULIANA TAVARES. Com Alvaro Leme, Dolores Orosco e Mariana Amaro

AS MUITAS PRENDAS DE GRAZI
Aos pouquinhos, GRAZI MASSAFERA, 30, que veio ao mundo da fama pelo BBB, aprimora suas batalhadas habilidades como atriz. A sofredora Ester, a protagonista da nova novela das 6 da Globo, Flor do Caribe, tem feito muita gente se emocionar. "Gravei uma cena, em uma feira livre, em que eu procurava meu namorado. Um senhor (que no era ator) largou a bicicleta para me acompanhar  delegacia e uma mulher ficou com os olhos cheios d'gua", relata Grazi. A experincia tambm trouxe  atriz a certeza de que o papel de mulher delicada, alimentado na TV e fora dela, garante a ela um sucesso danado. "Vira e mexe, estou vestindo algo laranja, amarelo ou vermelho, as cores do pr do sol", diz Grazi. Sobre o corpo magrinho, revela: "Como muitas razes, inhame, mandioca". E o que tem feito para se aprimorar? "Fiz um curso de culinria ayurvdica, de pilates, caminhadas..." Prendada, a moa. 

O BISNETO VEM A
SILVIO SANTOS, 82, vai ser bisav. Miguel, que nasce em maio,  filho de sua primeira neta, Lgia, dona de um buf. "Ele est feliz de ter um outro menino na famlia. So seis filhas, quatro netas e s dois netos", diz Lgia, que foi a Orlando para comprar o enxoval do filho e, surpresa, encontrou o av no shopping. No foi desta vez que o bisa comprou um presentinho para o beb que vem a, mas, remoado como est, no faltar tempo para o agrado, e muito mais. "Em novembro, como acontece h dez anos, fiz nele o que chamo de plstica modulada", afirma o cirurgio Pedro Albuquerque, que atende tambm Marta Suplicy e Ana Maria Braga. "Tiro bolsas de gordura e manchas de senilidade; mas no vou dizer o que fiz agora." 

O LOIRO MAU
Ao expulsar de campo o meia Clarence Seedorf, do Botafogo, um lorde do futebol (foi o segundo carto vermelho de sua carreira), o juiz carioca PHILIP GEORG BENNETT, 27, mas cara de 15, angariou, alm dos xingamentos familiares, menes s suas feies de adolescente. Tem sempre algum que o chama de Justin Bieber, de Xuxa", entrega Jorge Rebello, presidente da comisso carioca de arbitragem. Nada que abale Bennett, neto de ingleses e alemes, formado em jornalismo e fluente em quatro idiomas (inclusive holands, o de Seedorf). "No entendi nada da expulso", diz Seedorf, que antes de sair de campo soltou um sonoro " palhaada", em portugus castio. 

MAME FAZ-TUDO
Ela tem trs casas, uma em So Paulo, outra no Rio e, a maior, em Salvador, alm de jatinho, banda e estdio. Para dar conta desse arsenal domstico e profissional, a cantora CLAUDIA LEITTE comanda uma equipe de cinquenta funcionrios, e haja jogo de cintura para coordenar tudo. Exemplo: ela corre em uma esteira enquanto ensaia com seus msicos. E tem mais: "Estou virando empresria. J tenho esmalte e perfume com meu nome e agora quero lanar maquiagens e uma coleo de roupas", diz Claudia. O segredo do sucesso? "Meus produtos tm de ter 'facibilidade'. Opa, criei um neologismo!", ri a baiana arretada. "Apesar da trabalheira, onde quer que esteja, pego o avio para, ao menos, acordar com meus filhos, Davi, de 4 anos, e Rafael, de 7 meses." 

ORA, ORA, QUE BOAZINHA...
A cantora RITA ORA, 22,  a nova sensao entre os jovens britnicos. Nascida em Kosovo, ela se mudou para Londres com os pais quando tinha apenas 1 ano. Rita estudou msica, tirou o outro sobrenome, Sahatiu, de circulao e entrou para a turma das baladeiras por vocao. Em So Paulo, onde participou de um trabalho publicitrio, ela falou a VEJA. 

Seu pai tem um pub e voc bebeu sua primeira cerveja aos 14 anos. Tomou gosto pela coisa? 
Foi s um golinho. Alguns, reconheo. Agora eu bebo bem mais. E sei tirar pints muito bem. 

Rihanna  sua amiga. Como ela, voc tambm gosta de cigarrinhos permitidos e proibidos? 
H cantores que fumam de tudo e tm a voz clara como gua. No posso me dar a esse luxo. Se fumar, no vou ter voz no dia seguinte. 

Voc gosta de Rita Hayworth. Ela se queixava de que os homens dormiam com Gilda e acordavam com ela. Eles dormem com Ora e acordam com a Sahatiu? 
Prefiro dormir com pessoas que saibam com quem esto, para ningum ter um susto quando acordar. A melhor coisa  dormir de Chanel e acordar sem nada. 

Voc j foi vestida por Pucci e Roberto Cavalli. Fica com as roupas depois? 
Tenho de devolver. Mas se eu quiser muito uma pea  s falar que amei, amei, amei. Costuma funcionar. 

Vai sempre a Kosovo? 
Sim. Meus avs, tios e primos moram l. Gravei um clipe em Pristina, e as pessoas me cumprimentavam, davam presentes. Estavam felizes porque algum de l deu certo. 

Qual sua opinio sobre o conflito entre Kosovo e a Srvia? 
Os problemas deles tm a ver com posse de propriedades, cada um quer proteger o que  seu. H muita violncia contra as mulheres e crianas de Kosovo. Trabalho com a Unicef pelos direitos deles. 


3. ESPECIAL  NADA SER COMO ANTES
Como as famlias esto se reorganizando para se adaptar  lei que melhora a vida das empregadas domsticas, mas torna mais caros os seus servios.
LAURA DINIZ

     No, ainda no  o fim. Mas, sim,  certo que nada ser como antes. As mudanas provocadas pela aprovao no Senado da PEC das Empregadas comearo nesta semana, quando os quase 20 milhes de brasileiros que contam com os servios de algum tipo de empregado em casa notaro a presena de um objeto estranho na mesa do caf da manh: o caderninho de ponto. Ele , por enquanto, o recurso mais votado para ajudar patres a controlar o tempo mximo que os empregados podem trabalhar por dia  ilimitado at a semana passada e a partir de agora fixado em oito horas pela Proposta de Emenda  Constituio que amplia os direitos trabalhistas das domsticas, babs, motoristas, caseiros, jardineiros e cuidadores de idosos. A nova lei vai mudar um bocado a rotina das famlias brasileiras. Mas no s isso. Especialistas acreditam que ela ter reflexos no mercado de trabalho e vai alterar desde a impalpvel relao empregada-patroa at o bastante concreto setor de venda de eletrodomsticos. Para o bem e para o mal, a aprovao da PEC das Empregadas  um marco histrico para a sociedade brasileira. E uma oportunidade para o Brasil se livrar de uma poeira que h muito ficou sob o tapete. 
     No microuniverso familiar, a mudana ser tanto maior quanto mais dependente dos servios dos empregados as famlias forem. Isso porque, de todas as novas regras, a que institui o pagamento da hora extra  a que tem maior potencial de causar um rombo no bolso do empregador. Enquanto o aumento mdio no custo de uma empregada que trabalha at oito horas por dia no passa de 8%, o de outra, que cumpre uma jornada de apenas duas horas a mais, chega a 72%. A consequncia dessa equao  que os que no forem obrigados a demitir por falta de flego para bancar os novos salrios sero forados, ao menos, a diminuir o perodo de trabalho dessas funcionrias. Em muitas casas, isso significar um rearranjo radical nos hbitos da famlia. 
     Na Europa, os empregados domsticos representam 0,3% da fora de trabalho. No Brasil, chegam a 6,5%. Evidentemente, a europeia s consegue viver sem empregada porque sua realidade  diferente, a comear pelo fato de que seu marido lava pratos e suas crianas fazem a prpria cama  o que, longe de ser um ato de boa vontade,  obrigao de cada um. Depois, h as mquinas  relativamente mais baratas e francamente superiores , de onde as roupas saem sequinhas e sem vincos, o que poupa a dona de casa de pelo menos duas etapas do massacrante processo que faz uma camisa suja lanada no cesto de roupas aparecer branquinha no cabide. 
     Um levantamento feito pela Warwick Business School, no Reino Unido, concluiu que o tempo mdio dedicado pela mulher ao trabalho de casa caiu nos ltimos sessenta anos de cinquenta horas semanais para dezoito horas. "O uso dos aparelhos domsticos foi o grande responsvel por essa reduo", explica o financista americano William Skillman, autor do estudo. Hoje, 94% das casas britnicas tm mquina de lavar roupas. Em 1950, no chegavam a 10%. No Brasil, apenas 47% das famlias possuem o equipamento. "As mquinas de lavar" loua devero ser as novas vedetes de consumo no Brasil, com um aumento de at 10% nas vendas nos prximos anos", diz Samy Dana, professor da Escola de Administrao de Empresas de So Paulo da Fundao Getulio Vargas e especialista em finanas pessoais. 
     A automatizao crescente das tarefas ser apenas uma das novidades que a nova PEC deve levar aos lares brasileiros. Ao estabelecer regras de microempresa em territrio domstico, em mais de um aspecto regido pela informalidade, ela vai alterar a natureza de uma relao que, no Brasil, nasceu ambgua e cresceu confusa. "A relao empregada-patroa, que mistura explorao e solidariedade, tem origem no perodo da escravido, quando a senhora da casa no tinha outra funo que no a de acompanhar o servio da cozinha e passava o dia ao lado das escravas e seus filhos", diz a historiadora Mary Del Priore. "A situao acabava gerando intimidade, mas no anulava o carter de explorao da relao. Isso deixou marcas nos dias de hoje, ainda que o cenrio e as condies tenham mudado", afirma. Assim, dizer que Maria  "como se fosse da famlia" pode ser uma verdade em termos sentimentais, mas pode tambm ser uma crena que resulta no escamoteamento de obrigaes empregatcias  se Maria  praticamente da famlia, a ponto de passar com ela as festas de fim de ano, por exemplo, por que se preocupar em pagar os dias que Maria trabalhou nesses feriados? No que esse sistema de solidariedade no tenha trazido vantagens tambm para os empregados.  graas a ele que muitos contam h tempos com benefcios que a lei no previa, mas que sempre lhes foram facultados por empregadores que achavam justo proceder assim.  tambm por causa dele que muitos patres custeiam a educao de suas empregadas, providenciam atendimento mdico para seus filhos, bancam sonhos e desejos daquelas que lhes servem, aturam e s quais eles querem genuinamente bem. Ocorre que esse "sistema de bondades" embute problemas. Alm de se sobrepor s regras trabalhistas, produz uma injustia fundamental: a que faz com que uma empregada dependa da sorte de ter um bom patro para usufruir direitos j incorporados por outras categorias profissionais. Para que isso se realize agora, as domsticas no precisam mais contar com a sorte. Tm a lei. 
     Mas, antes de pr ordem na situao, a nova PEC dever complic-la um pouco. Por exemplo: fazer um ch para o patro ou brincar com as crianas da casa ser trabalho ou no? Por lei, o que for ordenado  trabalho, mas o que for voluntrio no. O que acontece  que as coisas se misturam e, dentro de casa, no se revestem de grandes formalidades.  o tipo de situao que poder abrir as comportas para uma avalanche de processos judiciais, no necessariamente fundamentados, contra patres. Tome-se o exemplo de uma bab ou o de um cuidador de idoso no registrados que morem com os patres. Sob a influncia de um "advogado de porta de cozinha", eles podem alegar que trabalhavam oito horas por dia e faziam dezesseis horas extras porque estavam sempre  disposio do patro, inclusive quando dormiam. Se um juiz acatar o argumento, a fatura pode passar de 100.000 reais por apenas um ano de trabalho. Diz o ministro Ives Gandra da Silva Martins Filho, do Tribunal Superior do Trabalho: " importante que os juzes do Trabalho apliquem a lei com ponderao para no gerar passivos fabulosos. No d para imaginar que um trabalhador ficou  disposio 24 horas por dia pelo fato de morar com uma famlia. H que ver o que efetivamente houve de esforo produtivo, sob pena de criar uma distoro em que a empregada ganha mais que a patroa". 
     A histria j provou que leis que aterrissam no vcuo no "pegam". Quando os legisladores tentam impor uma regra alheios  realidade que a cerca, a chance de que a realidade venha a se adaptar  regra  minscula. No parece ser o caso da PEC das Empregadas. A remunerao mdia da categoria mais do que dobrou nos ltimos dez anos, enquanto o aumento na escolarizao das brasileiras diminuiu a oferta do servio. As domsticas passaram a ser vendedoras, professoras e auxiliares de escritrio. Ao mesmo tempo, cresceu a demanda por esse tipo de profissional, j que muitas mulheres da classe mdia ascenderam na carreira e passaram a precisar de algum para ajud-las em casa. "A empregada j vinha sendo valorizada pelo mercado, a lei apenas reconheceu essa realidade", diz o economista Luiz Guilherme Scorzafave, da USP de Ribeiro Preto. 
     Ele afirma que, num primeiro momento, as novas regras podem resultar em demisses e no aumento da informalidade. Mas diz acreditar que o prprio mercado cuidar de ajustar a situao. "Muitas ex-empregadas podero, inclusive, conseguir servios mais bem remunerados." E, dentro do universo domstico,  certo que outras portas se abriro. "Veremos crescer a tendncia de contratar servios domsticos por hora, como os de passadeira, lavadeira e motorista", diz Samy Dana. 
     Como ocorre em toda grande mudana, transtornos sero inevitveis. Mas, a mdio prazo, acabaro absorvidos e podero provocar no apenas saudveis mudanas de hbitos nas famlias, como a diviso mais igualitria das tarefas domsticas entre seus membros, mas tambm intensificar a cobrana do poder pblico por melhorias no sistema de creches, transportes coletivos e tudo o que contribui para tornar menos sacrificada a vida de quem trabalha, precisa cuidar do lar e, a partir de agora, ter de contar cada vez menos com ajuda profissional em casa. A vida no ser como antes. Mas pode at melhorar. 

O QUE MUDA COM A NOVA LEI (A categoria dos empregados domsticos inclui: mensalistas, faxineiros, cozinheiros, copeiros, jardineiros, motoristas, babs, cuidadores de idosos, caseiros, entre outros.
PARA QUEM TEM...

A- ...DIARISTA QUE VAI UMA VEZ POR SEMANA - No muda nada. A lei no vale para esse caso, que no configura vnculo empregatcio.

B- ...DIARISTA QUE VAI DE DUAS A TRS VEZES POR SEMANA - A princpio, nada muda. A Justia do Trabalho costuma decidir que nesse caso tambm no h vnculo empregatcio. Mas especialistas consideram importante a adoo de medidas que deixem claro o carter autnomo do servio, como:
 Fazer os pagamentos aps cada dia trabalhado, e no mensalmente.
 No fixar horrio de entrada nem de sada (em vez disso, combinar as tarefas a ser cumpridas)
 Incluir o dinheiro para o transporte no valor da diria, em vez de oferecer vale-transporte.

C- ...EMPREGADA DOMSTICA FIXA
VALE A PARTIR DE AGORA
 Horas trabalhadas: A lei no impunha limite. Agora, ele  de oito horas por dia, com at duas horas de descanso, e 44 horas por semana.
 Hora extra: A lei no dispunha sobre isso. Agora, a empregada que realizar tarefas por um perodo superior a oito horas dirias vai receber 50% a mais pela hora extra trabalhada. Se exceder o limite de 44 horas por semana, tambm dever receber pagamento extra.

VAI VALER, MAS PRECISA SER REGULAMENTADO
 Adicional noturno: Se houver trabalho entre as 22h e as 5h, os empregadores devero arcar com um adicional noturno de no mnimo 20% para cada hora trabalhada. O pernoite de uma bab ou cuidador de sobreaviso na casa tambm poder ser considerado tempo de trabalho remunervel com adicional noturno.
 Pagamento de FGTS: Hoje opcional, passa a ser obrigatrio. O depsito  de 8% do valor do salrio mensal, mais horas extras, se houver.
 Multa por demisso: Atualmente, no existe. A partir de agora, com a obrigatoriedade do pagamento do FGTS, quem demitir um empregado estar sujeito s mesmas regras vlidas para as empresas: se no houver justa causa, ter de pagar multa de 40% do saldo do fundo.

D- ...EMPREGADA QUE DORME NA CASA
A situao  a mesma da empregada domstica fixa, com a diferena que:
 A empregada no poder ser solicitada durante o perodo noturno
 Caso isso ocorra, aplica-se a regra da hora extra com adicional noturno.

O QUE AINDA FALTA DEFINIR
Esses pontos tambm esto previstos na nova lei, mas ainda no est claro como sero implementados.
Auxlio-creche
Seguro contra acidentes de trabalho
Salrio-famlia

20 RESPOSTAS
Os desdobramentos prticos da nova lei sero definidos aos poucos pela Justia do Trabalho  medida que empregados e empregadores comecem a se adaptar. Mas para estas questes j h respostas:

PROVIDENCIAS IMEDIATAS
1- Quem j tem empregada ou vai contratar agora precisar fazer um contrato de trabalho e adotar livro de ponto?
No, mas ambos so recomendveis. O contrato pode ser um texto escrito a mo e assinado pelas duas partes, na presena de duas testemunhas. No  necessrio registr-lo em cartrio. O livro de ponto pode ser um caderno a ser preenchido e assinado pela empregada.

EXPEDIENTE NOTURNO, VIAGENS
2- Se a bab ou o cuidador dormir na casa, que pagamentos extras isso implicar?
Se o expediente comear durante o dia, o pagamento ser feito por oito horas de jornada normal, e o que exceder esse perodo ser hora extra, com adicional de 50%. Se a hora extra ocorrer entre as 22 e as 5 horas, incidir sobre ela tambm o adicional noturno de, no mnimo, 20%. Se o expediente comear s  noite e no ultrapassar oito horas, caber apenas o pagamento de adicional noturno.
3- Se a empregada ou a bab viajar com a famlia, isso implicar pagamento extra?
A deciso ainda depender de um posicionamento da Justia, mas, provavelmente, sim, porque em viagem o empregado est  disposio do empregador, que ter de arcar com horas extras e adicional noturno.

HORA EXTRA E DESCANSO
4- Se o empregado fez uma hora extra e atrasou uma hora, uma coisa anula a outra?
Sim. Mas  recomendvel registrar a possibilidade de compensao no contrato de trabalho.
5-  permitido fazer banco de horas em vez de pagar hora extra?
Em tese, sim, mas  recomendvel aguardar o acordo coletivo que ser realizado entre os sindicatos de empregados e de empregadores da categoria.
6- O empregado pode chegar uma hora mais tarde ou sair uma hora mais cedo, para evitar a hora de descanso?
No. A lei prev a obrigatoriedade do perodo de descanso durante a jornada.
7- O empregado pode abrir mo do descanso ou da hora extra?
No. Mesmo se ele assinar um documento dizendo que dispensa esses direitos, poder depois cobrar o pagamento na Justia.
8- E possvel proibir um empregado de fazer hora extra?
Sim, isso tem de constar no contrato. Mas, se mesmo assim o empregado fizer hora extra, ele poder ganhar na Justia.
9- O horrio de almoo conta como hora trabalhada?
No. So oito horas de trabalho mais, no mnimo, uma hora de almoo e descanso.
10- Durante o horrio de descanso e almoo, a empregada tem de sair da casa?
No. Ela pode almoar l, mas precisa ficar pelo menos uma hora sem trabalhar. Se quiser almoar fora, o patro no ser obrigado a pagar a refeio.
11- O tempo em que a empregada est em casa sem trabalhar conta como trabalho ou descanso?
Se ela estiver  disposio do patro, esse perodo ser considerado hora trabalhada. Se for combinado que ela no ser solicitada nesse perodo, o empregador no precisar pagar nada.
12- Se a empregada no vai aos sbados, ela pode trabalhar nove horas durante quatro dias da semana para somar 44 horas no total?
Em tese, sim, sem que isso conte como hora extra.  bom registrar essa informao no contrato de trabalho.
13- Se o empregado trabalhou apenas quinze minutos a mais, por exemplo,  preciso pagar a hora extra cheia?
No.  possvel pagar apenas o correspondente ao tempo trabalhado.

OUTRAS OBRIGAES E DESCONTOS
14- A nova lei obriga o empregador a pagar plano de sade?
No.
15- A famlia pode descontar as despesas que tem com comida, produtos de higiene e telefonemas dos empregados?
No pode descontar refeies nem itens de primeira necessidade. O uso do telefone pode ser cobrado.
16- Se a empregada trabalhar menos de 44 horas por semana, o patro poder aplicar um desconto no salrio?
No.
17- O patro pode diminuir o salrio da empregada para compensar o aumento dos encargos?
No.

PROCESSOS
18- Contratar uma agncia de faxineiras  garantia de no ter obrigaes trabalhistas?
No.  raro acontecer, mas h decises judiciais que fazem o tomador de servio dividir as responsabilidades com a agncia. Se a empresa no pagou o funcionrio ou no recolheu todos os encargos devidos e, condenada na Justia, no tiver como pagar a conta, ela ser cobrada do contratante.
19- Qual  o prazo para uma empregada processar um patro?
At dois anos depois do aviso prvio. Os fatos geradores do processo podem ter ocorrido at cinco anos antes do incio da ao.
20- Se o patro trabalha em casa, como profissional liberal, consultor ou dono de microempresa, a empregada  domstica?
Se ela atender telefonemas de trabalho dele, receber clientes e servir caf em reunies, por exemplo, poder ser considerada empregada urbana, uma outra categoria trabalhista, com todos os direitos previstos na CLT, o que gera mais encargos.

QUANTO VAI CUSTAR
Como calcular o custo mensal de uma empregada domstica aps as mudanas

SALRIO-BASE + HORAS EXTRAS [novo] =  SALRIO FINAL + FGTS [novo] + INSS = TOTAL

Horas Extras
Como Calcular
(Salrio-base dividido por 220 horas mensais) x Total de horas extras x 1,5 (para horas feitas de segunda-feira a sbado); x 2 (para horas extras feitas em domingos e feriados)

FGTS
Salrio final x 0,08

INSS
Salrio final x 0,12

A NOVA JORNADA DUPLA
Flvia Gatti Camba, advogada de 34 anos e me de gmeas de 1 ano, trabalha at doze horas por dia e, por isso, tem duas empregadas-babs, "daquelas que fazem tudo": cuidam das crianas e limpam a casa. At hoje, nenhuma tinha horrio fixo, mas, agora, ele ter de ser das 9 s 18 horas. Como os horrios do marido so menos flexveis que os dela, caber  advogada tentar adaptar a sua rotina  nova situao. "Vou adiantar reunies para sair a tempo de liberar as empregadas da hora extra." Ela mesma pretende pr as filhas para dormir. E depois retomar o trabalho  de casa.

A PATRICINHA QUE D CONTA DO SERVIO
Yasmin Brunet admite que tinha tudo para ser uma "patricinha". Mas, no tempo que passou em Nova York, a modelo aprendeu a lavar, passar e cozinhar. Parte da mudana se deve ao marido, Evandro Soldati, com quem divide as tarefas da casa. "Ele me ensinou a ser mais mulherzinha." De volta ao Brasil, o casal tem s uma diarista, uma vez por semana. Yasmin explica: "Se dou conta do servio, por que vou contratar algum para fazer? A casa  minha, sou eu que tenho de mant-la bonita". 

A SATISFAO DA DOMSTICA...
Durante uma dcada, Roberta de Oliveira Lima, de 43 anos, acumulava trabalhos para pagar as contas  diarista em uma casa, faxineira em uma escola de ingls e at cozinheira em restaurante japons. Mas a valorizao dessas profissionais nos ltimos tempos a fez abandonar os bicos e virar domstica fixa, h trs anos. Os patres ajudam na mensalidade da faculdade da filha mais velha e j pagaram aulas de reforo para a mais nova. J tinha carteira assinada, mas agora vai receber o FGTS. "No tenho nenhuma vergonha de ser domstica, hoje  uma carreira como outra qualquer." 

...E O DESCONTENTAMENTO DA PATROA
A advogada paulistana Snia Mascaro Nascimento, de 44 anos, diz no ver sentido em uma jornada de trabalho mais rgida para a empregada, como fixa a nova lei. "Elas tm contato com a intimidade da famlia,  uma relao mais prxima e, portanto, flexvel. No d para tratar como negcio." Snia argumenta que sua empregada serve o caf s 8 da manh e o jantar s 8 da noite, mas descansa parte do dia. "No tem cabimento burocratizar a relao que tenho com algum que v TV comigo."

COM REPORTAGEM DE BELA MEGALE, CAROLINA MELO, CAROLINA RANGEL, JULIA CARVALHO E KALLEO COURA


4. ESPECIAL  SAINDO DAS SOMBRAS
Em decorrncia de uma ssmica mudana demogrfica, as domsticas so a categoria que mais cresce nos EUA e, sem direitos bsicos, elas comeam a 
protestar nas ruas.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     A gerao que conheceu os Estados Unidos primeiro pelos seriados A Feiticeira, I Love Lucy ou Papai Sabe Tudo introjetou a noo de que, mesmo no auge da prosperidade do pas no ps-guerra, as famlias americanas de classe mdia no tinham empregada. A exceo eram os futuristas Jetsons com sua simptica mas severa Rosie, uma empregada-rob. Realmente, a maioria das casas americanas no d emprego fixo a cozinheiras, arrumadeiras ou babs. Na ltima dcada, porm, as aposentadorias polpudas dos americanos longevos  a cada oito segundos, um americano faz 65 anos  esto sendo usadas para empregar "cuidadores" e "cuidadoras", pessoas sem qualificao especial que tomam conta de idosos, ajudando-os a se vestir, a se banhar e a tomar remdios, alm de executar tarefas domsticas leves. 
     De acordo com o Bureau of Labor Statistics, rgo encarregado de coletar dados sobre o mercado de trabalho, as domsticas  particularmente as cuidadoras  so a categoria que mais cresce nos Estados Unidos. Entre 2010 e 2020, elas sero mais de 3 milhes de trabalhadoras, um salto de 70%. (A segunda categoria que mais cresce  a de engenheiros biomdicos, que ter aumento de 60% no mesmo perodo.) O fenmeno resulta de uma mudana demogrfica previsvel e intensa: o envelhecimento dos chamados "baby boomers". No fim da II Guerra, os soldados americanos voltaram para casa e engravidaram suas mulheres. Deu-se uma exploso demogrfica, um baby boom. Essa gerao do ps-guerra, nascida entre 1946 e 1964, est agora entrando no que se convencionou chamar  com uma pitada involuntria de ironia  de "a melhor idade". "Nossa misso  lutar para que a exploso de novos empregos seja composta de empregos dignos", diz Dlia Rubiano Yedidia, 24 anos, filha de imigrantes colombianos e ativista da Aliana Nacional dos Trabalhadores Domsticos. Fundada em 2007, a entidade comeou a dar visibilidade s domsticas nos Estados Unidos, lanando campanhas pela criao de proteo legal. At agora, Nova York  o nico estado com legislao trabalhista para as domsticas. 
     Na Califrnia, onde a maioria das domsticas  latino-americana, uma lei foi aprovada pela Assembleia Legislativa, mas acabou vetada pelo governador, o democrata Jerry Brown. Ele alegou que os idosos de baixa renda no teriam como arcar com os novos encargos criados pela lei. Com uma manifestao em que saram batendo potes e panelas em Los Angeles, no incio de maro, as domsticas j lanaram a campanha para aprovar um novo projeto de lei. "Faremos tudo para que no haja veto desta vez", diz o deputado estadual Tom Ammiano, aliado das domsticas. Em Illinois, onde as empregadas so, na maioria, imigrantes polonesas, tambm se discute lei especfica. Em Massachusetts, uma das lderes do movimento  Maria Rocha-Tracy, brasileira que amargou dramticas condies como domstica mas deu a volta por cima: estudou e, hoje,  ps-graduada em sociologia pela Universidade de Boston. 
     A recm-despertada militncia das domsticas j revelou uma realidade dura. Levantamento feito com 2000 empregadas em uma dezena de regies metropolitanas mostrou que a maioria recebe salrio baixo, descansa pouco e sofre abusos de toda sorte, devido  condio de imigrante e ao escasso domnio do ingls. Uma em cada trs trabalha longas jornadas sem descanso e, entre as domsticas que moram na casa dos patres, 70% ganham menos que o salrio mnimo e 25% no dormem cinco horas por noite de modo ininterrupto. 
     Desde que a nova lei entrou em vigor, as domsticas em Nova York tm direito a trabalhar quarenta horas por semana, ou 44, para as que vivem na casa dos patres. Recebem hora extra, com adicional de 50% sobre a hora normal, e ganham o salrio mnimo  7,25 dlares por hora, o que d quase 1200 dlares por ms para quem trabalha quarenta horas. Alm disso, tm direito a trs dias de frias remuneradas por ano. Para um brasileiro, pode parecer uma indecncia, mas o fato  que os americanos no tm direito a frias pagas por lei.  tudo negociado entre patro e empregado, ou via sindicato. O resultado  que cerca de um em cada quatro americanos no tem frias remuneradas nem recebe salrio nos feriados. Um estudo elaborado em 2007 mostra que o trabalhador do setor privado goza, em mdia, nove dias de frias remuneradas por ano. Portanto, para as domsticas, os trs dias garantidos em lei so um avano. Os direitos conquistados em Nova York so a principal inspirao das campanhas na Califrnia, Illinois e Massachusetts. 
     A mobilizao das domsticas est tirando das sombras uma situao antiga. Nos anos 30, quando o Congresso americano aprovou as primeiras leis de proteo trabalhista, as domsticas e os trabalhadores do campo foram excludos. Se no fosse assim, a lei no teria o apoio da bancada dos deputados e senadores do sul, cuja economia se apoiava fortemente nessas duas categorias. Desde ento, pouco foi feito em favor das domsticas. No caso dos agricultores, outra categoria em que os imigrantes so o brao forte, os parlamentares que debatem a reforma da imigrao no Congresso esto discutindo mais proteo legal. Mas, por enquanto, nada se falou das domsticas nos Estados Unidos, para as quais a nova lei brasileira  quem diria  no passa de um sonho.

CAD A ROSIE?
     O termo rob, cuja origem vem de "rebota", que em checo quer dizer "trabalho forado", nasceu do desejo de criar mquinas que nos substitussem em trabalhos rduos. Mas, apesar de avanos tecnolgicos que permitiram criar computadores capazes de realizar clculos impossveis de ser feitos por pessoas, estamos longe de construir um andride como a famosa Rosie. A criada mecnica de Os Jetsons, popular desenho dos anos 60, realiza qualquer tarefa caseira sem se cansar. Um ciborgue como ela est reservado  fico. Na vida real robs so caros e limitados. 
     O rob caseiro de maior sucesso  o Roomba, que custa 350 dlares e foi comprado por 6 milhes de pessoas. S que ele se limita a ser um aspirador de p automtico. No  por falta de demanda que no existem mais mquinas. Uma pesquisa mostrou que 68% dos americanos se interessariam por comprar andrides capazes de limpar vidros. S que ter em casa um ciborgue programado para realizar algo simples como dobrar camisas custa hoje 400.000 dlares. So trs os limites que nos impedem de fabricar uma Rosie. O primeiro  que mos e pernas robticas no so delicadas o suficiente para se locomover em um apartamento sem quebrar vasos. Segundo,  necessrio um computador 37 vezes mais poderoso que o melhor supercomputador em operao para reproduzir os clculos que o crebro realiza para manter processos neurais responsveis pelo raciocnio. Por fim,  impossvel simular as diretrizes morais que nos guiam no dia a dia e que so atributos essenciais para, por exemplo, ser bab de uma criana. 
FILIPE VILICIC


5. HISTRIA  A DOR NO VAI EMBORA
MONICA WEINBERG

     Muitas crianas judias registraram em dirios os horrores que viveram nos campos de concentrao nazistas. Quase todos, porm, se perderam em meio aos destroos da II Guerra, o que faz do relato da artista plstica checa Helga Weiss, hoje com 83 anos, uma preciosidade histrica. Em papis amarelados que passaram dcadas mofando na gaveta  e agora foram reunidos no recm- lanado O Dirio de Helga (Ed. Intrnseca, 256 pginas, 39,90 reais) , ela percorre os anos de 1938 a 1945, contando as privaes que viveu na Praga ocupada pelos alemes e expondo em um texto ao mesmo tempo simples e cortante a barbrie que testemunhou primeiro no campo de Terezn, depois em Auschwitz. Ali desembarcou aos 14 anos. Sobreviveu por um lance de sorte: Helga conseguiu se passar por mais velha e entrou na fila dos que eram considerados aptos para o trabalho. Em nenhum momento se separou da me, mas perdeu o pai, que a incentivou, ainda em Terezn, a abandonar os desenhos de temtica infantil para despejar no papel o que via no campo. Uma amostra dessa intensa produo est nestas pginas  material que permaneceu intacto graas a um tio de Helga que trabalhava no departamento de registros no campo checo e escondeu o mao de papis em um buraco cavado em uma parede de tijolos, para recuper-lo depois da guerra. Os captulos ps-Terezn foram escritos quando ela j estava em casa, no mesmo apartamento onde at hoje vive, em Praga. Diz Helga, viva de um msico, que tem dois filhos e trs netos: ''Eu posso ter sobrevivido ao campo de extermnio, mas seus cheiros, sons e horrores nunca vo me deixar". A seguir, trechos da entrevista que ela deu a VEJA.

CHEGOU A NOSSA HORA
O antissemitismo se disseminava por Praga entre os anos de 1938 e 1940. Eu no podia mais ir  escola, ao teatro, ao cinema, nem andar em um parque vizinho  minha casa, cenrio de minha infncia, onde duas placas  uma em checo, outra em alemo  diziam: "Proibido judeus". Lembro da sensao de ter de pregar a estrela de um amarelo intenso com a inscrio "Jude" em minha blusa e ser tomada de raiva, dio, vontade de gritar e chorar quando me olhavam com desdm no meio da rua. Mas congelava o semblante, num esforo sobrenatural para no demonstrar nenhuma emoo. No queria dar esse prazer aos alemes. Um dia, veio a notcia que j espervamos: eu e meus pais estvamos na lista dos convocados para o campo de Terezn. Comecei a embrutecer e a virar adulta ali, aos 12 anos.

A SOMBRA DA MORTE
Terezn funcionava como uma escala antes de Auschwitz e de outros campos de extermnio. Era alardeado pelos alemes como um lugar modelo  mentira deslavada que um comit internacional da Cruz Vermelha engoliu na famosa visita que fez ali em 1944. Avisados da inspeo, os nazistas se esmeraram para dar ares de humanidade ao local: pintaram paredes, demoliram as camas de trs andares e construram uma escola de fachada. A comisso ficou sem entender o horror que era. Todos os dias, pessoas morriam s dezenas de tuberculose, tifo ou vtimas de castigos pblicos ao estilo medieval. Certa vez, mandaram um grupo para a forca. Era gente que tinha conseguido burlar a proibio de enviar cartas para fora do campo. Eu no podia sair do quarto, mas vi da minha janela a sombra deles a caminho da morte. Estavam curvados, resignados. Se algum ousasse reagir ou fugir de Terezn, outros pagavam da forma mais terrvel possvel: a deportao imediata para Auschwitz.

IMAGEM DO INFERNO
Tudo o que sabia quando embarquei no trem que partia de Terezn em outubro de 1944 era que estvamos indo para o leste. O destino era Auschwitz. A primeira imagem que tive daquele lugar foi a de um mar de chamins soltando uma fumaa espessa, escura. Achei que eram fbricas, mas um alemo esclareceu: "So cmaras de gs. Vocs esto num campo de extermnio''. Entrei ao lado da minha me em uma fila da qual no se via o fim. Um homem ia analisando caso a caso. Ao que tudo indica, era Josef Mengele. Nunca vou ter certeza. No olhei o seu rosto. Fixei-me apenas no dedo, que ora se movia para a esquerda  o lado das crianas e dos velhos que iam direto para as cmaras da morte , ora para a direita  a fila dos mais fortes e aptos ao trabalho escravo no campo. Aquele homem tomava a deciso sobre quem ia viver ou morrer em questo de segundos. No escondia o prazer que tinha de brincar de Deus. Eu tinha 14 anos, mas parecia mais velha, e acabei me juntando aos trabalhadores, com minha me.

"PERDI A MELHOR FASE"
Divertiam-se raspando nossa cabea. Eu me imaginava horrorosa, mas no havia espelho em Auschwitz. Um dia, vi minha imagem refletida na janela, cadavrica, feia, velha. No era uma adolescente. Na verdade, tinha de me esforar muito para me sentir humana. Descobri da forma mais brutal possvel que, a partir de certo estgio de degradao, voc passa a ter as reaes instintivas de um animal. Aprendi a viver  base de pouca comida. Perdi as contas de quantas vezes fiquei doente e, mesmo sem remdios, me curei, movida por uma vontade fora do normal de sobreviver. Isso eu nunca perdi. Mas, ao mesmo tempo, me perguntava: quando o arame farpado for arrancado e os muros demolidos, seremos capazes de viver entre aqueles que seguiram sua vida sem interrupes?

DOIS DIAS SALVADORES
Conforme os russos avanavam, os alemes fugiam de campo em campo, carregando num trem para gado os poucos judeus que restaram. Eu estava entre eles. Desembarcamos em Mauthausen, na ustria, apenas dois dias depois de a cmara de gs ter sido desativada. Escapei da morte por esses dois dias. Sim, porque, mesmo diante da derrota iminente, os nazistas estavam decididos a seguir em frente com a soluo final. Ocorreu-me pular daquele trem e fugir, mas minha me no aguentaria ir comigo. Enquanto os vages cruzavam o cenrio de terra devastada, pessoas na rua arremessavam po em nossa direo, e eu pensava: "Meu Deus, essas pessoas so boas!".

NINGUM QUERIA OUVIR
Depois da guerra, ficava me perguntando: por que justamente eu sobrevivi, se havia gente to mais talentosa e inteligente? H vrias respostas possveis. Fui til no campo, trabalhando na colheita, depois na montagem de avies. Tambm mantive a disciplina de comer mesmo quando tinha asco do que vinha no prato. A idade ainda contou a favor. Mas havia muita gente, assim como eu, que jamais teve a sensao de ser livre de novo. Tive sorte. Das 15.000 crianas enviadas a Terezn, sobraram 100. Eu e minha me recuperamos o apartamento onde vivamos antes, lugar que me trazia  mente as lembranas da infncia ceifada e uma dor terrvel pela ausncia de meu pai, que nunca mais voltei a ver. Meu corpo aguentou todo o horror, mas, ao chegar em casa, desabei e fui levada a um hospital. A solido de quem passou por um pesadelo como esse  algo insuportvel. Em meio aos escombros e s feridas no cicatrizadas, ningum queria ouvir minha histria.

REVIRAR A MEMRIA
Meu dirio ficou dcadas acumulando p no fundo da gaveta. Se lesse, era como se estivesse l, no meio do inferno de novo. Resolvi public-lo agora porque estou velha e me aflige ainda ver a intolerncia chegando a graus extremos na poltica, na religio, como se pouco, ou nada, se tenha aprendido sobre os riscos e as consequncias de alimentar o dio. Ter sido alvo de tamanha selvageria me tornou muito mais resistente s adversidades, e dura. Escrever meu dirio foi a maneira que encontrei de me sentir humana. Em certo sentido, foi tambm o que me salvou.


6. ESPORTE  LIO DE BIOMECNICA
A anlise em ultracmera lenta dos movimentos de grandes tenistas ajuda a entender por que os amadores sempre acham que nunca vo melhorar.
ALEXANDRE SALVADOR

     Os movimentos do tenista suo Roger Federer so uma aula de biomecnica  vistos com o recurso de ultracmera lenta, servem como um curso inteiro de ps-graduao esportiva. Aos 31 anos, atual segundo lugar no ranking mundial o maior campeo da histria, vencedor de  dezessete ttulos de Grand Slam (a srie anual dos quatro mais reputados torneios), Federer j nem depende de vitrias para sustentar a aura que o cerca. Seu estilo de golpear a bola, ao mesmo tempo elegante, simples e eficaz, sem as pancadas cheias de efeito e velocidade de Rafael Nadal, torna fcil o que evidentemente no . Recentemente, o bale de Federer, capaz de jogar numa quadra  de saibro sem sujar as meias, virou objeto de predileo de pesquisadores e professores de tnis, que esmiam o talento do suo para mostrar aos demais praticantes da modalidade  mesmo os profissionais, mas sobretudo os iniciantes  como se deve bater na bolinha. 
     Tanto para cientistas quanto para amadores, nenhuma arma foi mais decisiva para escrutar as artes de Federer que os avanos tecnolgicos nas transmisses esportivas pela televiso. No tnis, sucessivos anos de treinamento muitas vezes no resultam em melhora aparente, dada a repetio de jogadas com a postura equivocada.  preciso aprender uma nova linguagem, descobrir os movimentos correios, e as imagens detalhadas em vdeo so o atalho ideal para identificar essas nuances.  
     Hoje, mesmo as cmeras digitais semiprofissionais conseguem captar o movimento a uma razo de 300 quadros por segundo  registro dez vezes mais rpido que o das filmadoras analgicas e vinte vezes mais veloz que a percepo do olho humano, de apenas dezesseis quadros por segundo. Na prtica, isso equivale a dizer que, enquanto a ultracmera lenta consegue registrar, quadro a quadro, o momento exato em que a bola atinge a raquete, nossos olhos so incapazes de capturar esse instante. No sculo XIX, foi justamente essa incapacidade humana de perceber os detalhes de objetos em movimento que motivou o fotgrafo ingls Eadweard Muybridge, um dos pioneiros da chamada cronofotografia, a desenvolver um mtodo de anlise que antecedeu a biomecnica. 
     Em 1877, Muybridge foi o primeiro a provar com imagens que, durante o galope, um cavalo chega a ter as quatro patas fora do cho. Alm de animais, o ingls registrou diversos movimentos de humanos, um deles o ato de rebater uma bola com a raquete de tnis. Muybridge dava velocidade ao que era razoavelmente lento. A cmera lenta de hoje ajuda a paralisar instantes velocssimos. "As cmeras modernas permitem a jogadores e tcnicos ver a realidade sobre seus golpes, e no mais seguir cegamente regras baseadas em impresses", disse a VEJA o americano John Yandell, fundador do site Tennisplayer.net, cujo banco de dados possui 65.000 vdeos dos melhores tenistas do mundo. O srvio Novak Djokovic, o atual nmero 1, usou as imagens registradas por Yandell para corrigir um problema recente de posicionamento em seu saque. 
     A redescoberta visual do tnis evidenciou as jogadas mais repetidas dos grandes craques, uma espcie de repertrio da perfeio com a raquete (veja o quadro abaixo). Essa evoluo ocorreu de mos dadas com a cincia dos equipamentos esportivos. No incio do sculo XX, as raquetes eram de madeira e as cordas, feitas de tripa de vaca. Pesavam quase meio quilo. Atualmente, os aros so construdos com fibra de carbono e o encordoamento  de material sinttico. O peso: pouco mais de 300 gramas. O porte fsico dos atletas tambm mudou. O australiano Rod Laver, o rei do tnis na dcada de 60, linha 1,73 metro de altura. Djokovic tem 1,88 metro. "Os treinadores tiveram de aprimorar seus mtodos para adequ-los ao extraordinrio aumento na velocidade do jogo", explica o tcnico Ludgero Braga Neto, doutor em biomecnica pela Universidade de So Paulo. "Estudos recentes de neurolingustica j comprovaram que a grande maioria das pessoas aprende por estmulos visuais. Da a relevncia da anlise em vdeo.

O REPERTRIO DOS CAMPEES
Os quatro movimentos para os quais convergiram os grandes tenistas profissionais.
PASSO DE AJUSTE -  o primeiro movimento do tenista. O jogador d um pequeno salto  frente, para romper a inrcia durante a devoluo de saque. Esse passo tambm pode ser usado para frear o corpo depois de se aproximar da rede ou para se posicionar para golpear a prxima bola do adversrio. Isso o auxilia a deslocar-se para a direo desejada com maior agilidade.
GIRO EM UM TEMPO - O primeiro passo em direo  bola tambm  fundamental e deve ser feito com a perna certa. No ataque, os profissionais comeam a abaixar seu centro de gravidade flexionando levemente os joelhos. Na maioria dos casos, se a bola vem pela direita, o primeiro p a tocar o cho deve ser o direito. Se a bola vem pela esquerda,  o p esquerdo que deve tocar o cho primeiro. Assim, o tenista melhora a fluidez e evita atrapalhar a sequncia do golpe.
EFEITO MOLA - O jogador faz movimentos que visam a acumular a maior quantidade de energia para liber-la logo antes do contato com a bola, como se seu corpo fosse uma mola. No forehand, o tenista destro segura a "garganta" da raquete com a mo esquerda. Isso faz com que todo o tronco, e no apenas o brao, gire, "pressionando a mola". A energia armazenada nos msculos do tronco passa pelo brao e  transferida para a bola.
CADEIA CINTICA - Para que o golpe atinja o objetivo esperado, a energia gerada por diferentes partes do corpo (p, joelho, quadril, ombro, cotovelo e punho) precisa ser transmitida sem interrupes nem antecipaes. Essa transferncia s ocorre de forma eficiente quando existe coordenao entre as partes, para que a trajetria, a velocidade e o posicionamento da raquete sejam adequados no momento de contato.

Fonte: Ludgero Braga Neto, doutor em biomecnica pela Universidade de So Paulo e coordenador tcnico da Academia Slice Tennis, em Alphaville, na Grande So Paulo.


7. BELEZA  CIRURGIA PLSTICA: QUAL O LIMITE?
Retocar o rosto  pouco: muitas mulheres hoje se submetem a procedimentos invasivos, que chegam a mutilar partes do corpo, como os ps e as costelas.
CAROLINA MELO E FERNANDA ALLEGRETTI

     A cirurgia esttica  e os procedimentos que so seus precursores  existe desde o Egito antigo e, no mundo moderno, tornou-se uma forte aliada da vaidade feminina. Em nome da beleza, porm, os cirurgies plsticos e suas clientes passaram a lanar mo de uma srie de recursos que surpreendem por ser extremamente invasivos. Exemplos desses recursos encontram-se no livro Love Me (Me Ame), do fotgrafo ingls Zed Nelson. Durante cinco anos, Nelson viajou por dezoito pases fotografando pessoas preocupadas com a aparncia, muitas viciadas em cirurgias plsticas. Seu trabalho mostra a estranheza de vrias dessas cirurgias. Algumas delas incluem at mutilao de partes do corpo. 
     Numa das imagens mais chocantes do livro de Nelson, a americana Kristina Widmer mostra a radiografia de seu p com trs dedos encurtados cirurgicamente, com fios de metal implantados para sustentar o que sobrou dos ossos e tendes. Seu objetivo com a interveno foi diminuir o tamanho dos ps para que eles coubessem melhor nos sapatos da sua marca favorita, a Jimmy Choo. O espantoso  no ser um caso isolado. As cirurgias estticas nos ps so a especialidade da Beverly Hills Aesthetic Foot Surgery, em Los Angeles. Uma das mais comuns  a que diminui o dedo do meio do p, aquele que muitas vezes se destaca por ser maior do que os demais e fica para fora da sandlia  ou apertado dentro dos sapatos fechados. H tambm uma tcnica de enxerto de gordura do abdmen na sola dos ps para deixa-los mais acolchoados e confortveis ao calcar saltos altos. Mulheres que querem afinar a cintura e evidenciar os quadris chegam a retirar duas costelas  uma de cada lado do trax. Essa cirurgia  desaconselhada pelas entidades que regulam a cirurgia plstica, mas no  difcil achar cirurgies dispostos a realiz-la  inclusive no Brasil. 
     Nada h de estranho ou condenvel em que as mulheres queiram retocar o rosto ou o corpo para corrigir imperfeies ou ficar mais bonitas, mas, diante de intervenes to radicais,  o caso de perguntar  principalmente aos mdicos  quais os limites aceitveis das cirurgias estticas. Certamente, dentro desses limites est a mania que tomou conta de muitas americanas e inglesas nos ltimos dois anos: adquirir um nariz igual ao de Kate Middleton, mulher do prncipe William. O mdico americano Thomas  Romo, diretor de cirurgia plstica facial do Hospital Lenox Hill, em Nova York, diz j ter realizado mais de 100 operaes em pacientes com idade entre 16 e 28 anos que levavam fotografias de Kate para servir de referncia. Disse Romo a VEJA: "Isso mostra uma mudana no padro das mulheres, que esto querendo mais naturalidade e delicadeza". No Brasil, a cirurgia mais popular  a abdominoplastia, mas a que mais conquista novos adeptos  a gluteoplastia, destinada a aumentar o volume das ndegas  nos ltimos trs anos, a procura por esse procedimento cresceu 340%. 
     No Ir, ocorre um caso de obsesso coletiva por operaes para reduzir e arrebitar o nariz. A cada ano 200.000 iranianas se submetem a intervenes desse tipo, e elas mesmas do sua justificativa: o rosto  a nica parte do corpo feminino que pode ser exibida publicamente na repblica dos aiatols. A maioria delas chega ao consultrio pedindo um nariz parecido com o de atrizes de Hollywood. Na China e no Japo, a referncia de beleza das jovens, ao se submeter ao cirurgio, so as personagens dos mangs, as histrias em quadrinhos orientais. Deixam os olhos arredondados e o maxilar bem fino, ou seja, elas eliminam as feies orientais. 
     Os psiclogos e psiquiatras, compreensivelmente, condenam as intervenes radicais. Diz a psicloga Marjorie Vicente, que trabalha com pacientes com transtorno alimentar e de imagem no Hospital das Clnicas, em So Paulo: "Vaidade  natural, mas a partir de certo ponto a cirurgia plstica demonstra uma rejeio de si mesmo. Ela se torna um sintoma patolgico". 


